quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Como nem toda lembrança...


Todos têm aquela primeira lembrança da infância. Eu tenho a minha. Mas não é da primeira, nem da segunda, mas uma que só adulto pude entender claramente o significado.

Não é uma lembrança feliz. Porém está longe de ser triste pelo que ela causou em mim e na minha educação.

Essa é uma das lembranças que causou em mim uma consciência de minha própria condição social, só que muitos anos mais tarde, quando já adolescente.


Eu fui uma criança que fazia suas birras ocasionais e muitas delas na hora das refeições. De um bebê que comia de tudo (segundo minha mãe) passei a uma criança mais "chata" pra comer. Não demais, ainda comia de tudo um pouco, mas já tinha minhas preferências, como perto dos 5 anos odiar comer arroz puro e sempre pedir feijão, que já era caro, e a saída de meus pais foi começar a comprar feijão preto, mais amargo e, na época, mais barato. Hoje mais caro por estar relacionado à feijoada do brasileiro, o feijão preto era considerado de menor valor que o carioca, por exemplo.

Mas não é essa a história. Essa é a introdução com um exemplo posterior à história que quero contar:

Acredito que tinha uns 3 anos de idade, portanto não lembro com exatidão de todos os diálogos, apesar do fato estar muito claro na minha memória e os olhares e fragmentos da conversa que estão na minha mente chegam a doer às vezes. Em uma noite escura, ainda mais escura por termos a luz cortada (fato que só tomei consciência também na adolescência, apesar de evidente, mas não para uma criança daquela idade), com meu pai em silêncio, minha mãe não insistiu para que jantássemos e colocou minha irmã, ainda bebê, para dormir. Nessa hora começou a minha participação vergonhosa causando um momento muito triste.

Eu não quis dormir.

Eu fiz a pior coisa que eu poderia naquele momento.

Eu disse para meus pais que estava com fome...

Meus pais eram sensacionais. Eu sendo pai não faria absolutamente nada diferente do que eles fizeram por mim ou por minha irmã se eu puder. Eles são meus exemplos, os dois, até hoje. Mas naquela noite... eu os deixei tristes... Assim como não havia eletricidade na casa aquela noite, também não havia comida.

Nenhuma.

Não lembro das palavras exatas, mas lembro da minha mãe insistindo sorrindo para que eu fosse dormir. Lembro de também insistir que estava com fome. Lembro do meu pai em silêncio com uma expressão que anos mais tarde sabia que era a que tinha quando buscava soluções sem se desesperar. Essa característica me percebi tendo a partir da adolescência, a de me manter calmo nas piores situações, encontrar a solução. Me desesperar sozinho depois, se necessário. Mas meu pai era assim e me orgulho de ter isso dele: não piorar a situação com mais desespero.

Foi com essa calma, apesar da tristeza, que ele disse algo sobre "ir no Ney". Ney era o proprietário e quem atendia em um bar no Centro de Rio Claro. Conhecia por ser caminho para a casa de minha avó paterna. Era lá que meu pai parava para comprar uma pinguinha, me comprava um chiclete e me deixava escolher um ou dois números na rifa do frango. Rifa quase sempre vendida pelo Pinguinha, um frequentador do bar que nos finais de semana passava quase o dia todo no local e fazia as vezes de funcionário.

Uma pessoa de fora acharia que  meu pai estava fugindo para beber. Minha mãe com certeza não fazia ideia do que meu pai pretendia, mas ficou me distraindo enquanto meu pai pegava sua bicicleta e sumia para a luz da rua em direção a um bar que não era tão perto.

Enquanto não retorno meu pai à história, gostaria de expressar aqui o quanto eu entendo a reação da minha mãe. Presenciei, durante todo meu tempo morando com meus pais, diversas discussões, poucas realmente acaloradas, e, apesar de meu pai claramente evitá-las e quase sempre eu achar que o lado errado era o da minha mãe, nunca tomei partido em nenhuma. Poucas foram as vezes que apenas pedi que minha mãe parasse quando ela já gritava sozinha depois que meu pai simplesmente se afastava para não piorar a situação.

Mas nesse momento o foco é a reação de minha mãe. Ela não perguntou nada. Lembro claramente de minha mãe apenas focando em me manter sorridente e distraído. Ela sabia que meu pai tinha pensado em algo quando ela não tinha e estava em uma tentativa de solucionar o problema que causei com a minha "fome". Ela confiava nele como marido e também como pai. E como pai ela sabia que ele não fugiria atrás de bebida enquanto tinha um problema muito importante a ser resolvido.

Não demorou muito, apesar da distância, para que meu pai retornasse com uma sacola e um lanche de pernil muito recheado enrolado em papel dentro dela. Ouvi algo como "ele fez fiado". As poucas palavras que me lembro de ouvir enquanto comia me faz entender que meu pai pediu fiado, explicou o motivo e o Ney fez um lanche para ele trazer para o filho em casa.

Eu me lembro do Ney. Assim como me lembro um pouco do seu pai, o Seo Henrique.

O Ney sempre foi extremamente simpático comigo. Já adolescente, quando a caminho da minha avó, sozinho, mantive o hábito de dar uma paradinha no bar e comprar um chiclete ou um refrigerante. Às vezes até mesmo um frango assado levava para minha avó, já ganho pelo meu pai em alguma rifa anterior. O Seo Henrique mantinha o bar ali desde quando meu pai era criança. Quando mais velho, meu pai frequentou a farmácia que meu tio mantinha na esquina em frente a esse bar. Era também do Seo Henrique o apartamento na praia que ficávamos quando eu era criança. Já adulto aluguei o mesmo apartamento ao viajar com minha namorada, irmã e cunhado para Praia Grande.

Então eu sei o que o Ney fez naquela noite e não tenho certeza se esse fiado foi pago ou esquecido propositalmente pelo dono do bar.

Também sei que essa noite me dói na lembrança até hoje.

Me dói porque eu não sei quanto tempo meus pais já não comiam para que não faltasse para minha irmã e para mim.

Me dói porque eu piorei uma situação que já era muito ruim pra eles. Foi de forma inocente, com certeza, mas me culpo até hoje por isso.

Eu tive pais maravilhosos. E eles não eram maravilhosos por não me deixar faltar nada na vida. Eles sempre nos mostraram as limitações que enfrentávamos.

Eles foram maravilhosos por não nos deixarem perceber que, às vezes, faltou, sim...

Bonitinha, né?

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